quarta-feira, 20 de maio de 2009

peça para duas pessoas e um homem



“O HOMEM QUE
OLHOU PARA CIMA”

de
Ruy Jobim Neto
.....
Personagens:
HOMEM
PESSOA 1
PESSOA 2
.......

(um homem anda, atravessa o palco em diversos momentos, há um mistério nele. Em determinado instante do espetáculo esse homem olha para cima. E se fixa nisso. As pessoas, em torno, olham também e param curiosas. Vão conversar com ele)

PESSOA 1
O que o senhor tá vendo?

HOMEM
Psst!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Ele tá vendo alguma coisa? O quê?

HOMEM
Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) É o que eu vou tentar descobrir. (para HOMEM) Meu senhor.

HOMEM
Psst.

PESSOA 1
Meu senhor! O que o senhor está vendo?

HOMEM
Me deixa.

PESSOA 2
Não tá vendo que este homem não quer ser interrompido?

PESSOA 1
Mas interrompido em quê? E pra onde ele tá olhando? Você tá vendo alguma coisa?

PESSOA 2
Eu não.

HOMEM
(para as duas pessoas) Psst! Fica quieto.

PESSOA 1
(para o HOMEM) Fica quieto por quê? O que o senhor tá vendo?

HOMEM
(sem tirar os olhos de para onde está olhando) Será possível que um homem não possa olhar, simplesmente?

PESSOA 1
Poder, pode, mas o quê, meu senhor?

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Não tá vendo que ele não quer dizer? Vamos embora!

PESSOA 1
(para PESSOA 2)
Embora pra onde? Calma! Ele não disse mas vai dizer!

HOMEM
Me deixa em paz!

PESSOA 2

Não tá vendo? Ele tá relutante!

HOMEM
Eu não estou relutante. Só estou vendo.

PESSOA 2
(enfezado) Tá! Tá vendo, mas tá vendo o quê, meu senhor?

HOMEM
O que vocês simplesmente não são capazes.

(PESSOA 1 e PESSOA 2 olham para cima, procuram, curiosos)


HOMEM
Há uma beleza lá em cima que vocês não são capazes de ver porque estão mergulhados em seus umbigos.

PESSOA 1
Eu não estou mergulhado em...

PESSOA 2

(para PESSOA 1) Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Ei!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Deixa ele falar!

HOMEM
O que vocês simplesmente não conseguem enxergar porque estão cegos, surdos e desprovidos de qualquer sensibilidade. É tudo o que eu estou vendo. Com olhos de criança. Como se fosse a primeira vez.

PESSOA 1
Mas o quê, meu senhor?

PESSOA 2
(agarrando o braço de PESSOA 1) Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Você tá vendo alguma coisa lá em cima? Tá vendo alguma coisa?

PESSOA 2
Eu não, mas quem sabe ele nos dê alguma pista! Tenha calma!

PESSOA 1
Eu nem te conheço! Por que vou ter calma? Por que vou ter calma com ele, também? Ele não quer dizer, que se dane! Pra que vou ficar olhando pra cima? Pra ver um pombo cagar na minha cara? Entrar merda de pombo nos meus olhos? Vê se eu lá tenho tempo pra perder com isso? Ele não quer dizer? Ótimo! Eu também não quero mais saber.

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Mas foi você que começou com isso.

HOMEM
Foi.

PESSOA 1
(para o HOMEM) Olha aqui, meu senhor, eu tenho mais o que fazer, viu? Isso aqui é uma metrópole e metrópoles não podem parar um instante sequer! Tempo é dinheiro! Já ouviu falar disso?

HOMEM
(sorri) “Tempo é dinheiro”. Eu tinha certeza de que mais hora, menos hora, essa frase ia sair da boca de alguém.

PESSOA 1
Saiu da minha!

HOMEM
Nada mais previsível.

PESSOA 1
E daí? (furioso) Por que o senhor não olha pra gente enquanto fala? O que tem de tão anormal, de tão bizarro lá em cima que o senhor não tira os olhos?

HOMEM
Você é extremamente previsível.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Eu vou pegar esse cara!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Calma! Talvez esse senhor esteja louco ou algo parecido. Isso acontece muito nas metrópoles. Pessoas param no Viaduto e ficam olhando para cima. Vá ver é uma forma de chamar a atenção. Eles fazem isso para que as outras pessoas olhem também. E daí esse senhor vai depois, para casa, de ônibus, feliz e satisfeito de ter feito pessoas olharem para cima.

HOMEM
Eu vou a pé.

PESSOA 1
O quê?

HOMEM
Eu vou a pé para casa.

PESSOA 1
Alguém te perguntou alguma coisa, meu senhor?

HOMEM
Eu vou a pé. Para olhar.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Este senhor está me tirando do sério!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Tenha calma!

PESSOA 1
Como vou ter calma? Não tenho meu tempo a perder! Muito menos com um sujeito como este senhor aqui, que olha sabe-se lá para onde! Esta cidade não pode parar.

HOMEM
Por isso ela não vive.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Agora foi demais! Eu vou pegar esse cara! Vou chutar ele!

PESSOA 2
(agarra PESSOA 1 como pode) Deixa disso!

HOMEM
Por isso a cidade não respira.

PESSOA 1
Ele está abusando! Me deixa! Eu vou encher ele de porrada!

PESSOA 2
Calma! Ele tá falando!

HOMEM
As pessoas não olham. Nem para elas mesmas.

PESSOA 1
Eu pego ele! Me larga! Eu vou matar esse cara!

HOMEM
(calmamente olha para os dois)
Vocês dois querem mesmo saber o que eu estou olhando?

PESSOA 2 e PESSOA 1
(juntos)
PESSOA 1 - NÃO!
PESSOA 2 – SIM!

HOMEM
(volta calmamente a olhar para cima) O homem moderno é exatamente como vocês. Essa miríade de indecisões.

PESSOA 1
Ele me xingou! Eu vou esmurrar ele!

PESSOA 2
Ele não falou de você!

PESSOA 1
Ele me chamou de mirí...do que que é mesmo?

HOMEM
Por isso a civilização está morrendo!

PESSOA 1
Eu mato! Eu esfolo! (para PESSOA 2) Me larga! Quem você pensa que é? Eu te conheço?

HOMEM
O homem não se vê mais.

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Você sempre pega o mesmo ônibus e o mesmo metrô que eu. Faz o mesmo trajeto de segunda a sexta-feira, exatamente às quinze para as nove. Religiosamente.

HOMEM
E não olha para cima.

PESSOA 2
Não.

PESSOA 1
Eu vou matar vocês dois.

HOMEM
Nada mais previsível.

PESSOA 1
Eu vou pular no pescoço!

HOMEM
Docemente previsível.

PESSOA 1
Eu mato!

PESSOA 2
Tenha calma. Este senhor estava prestes a nos dizer o que ele está olhando.

PESSOA 1
Não me interessa mais!

HOMEM
O interesse morreu.

PESSOA 1
Eu arrebento a cara dele!

HOMEM
(para os dois, enfático e em voz alta) EU ESTAVA... (PESSOA 1 e PESSOA 2 páram a confusão, olham para o HOMEM)...SIMPLESMENTE...OLHANDO...A CIDADE. (torna a olhar para cima calmamente, tom) Os prédios antigos. Da época do café. As construções que misturam o rococó com o art nouveau, as fachadas de lojas que tapam essas construções magníficas e os fazem desaparecer enquanto, na realidade, estes mesmos prédios estão aí há décadas. Viram passar milhões de pessoas por este mesmo pedaço de chão que estamos pisando. (olha para PESSOA 1 e PESSOA 2) E no entanto, ninguém mais presta a atenção neles. Ninguém. Estão todos cegos. E nesta cegueira, a cidade se perde porque as pessoas se perdem na imensidão de seus bolsos. O bolso - a fronteira final. O fim e o começo de tudo. O começo da vida. A razão das coisas. (ao mesmo tempo em que HOMEM fala, PESSOA 1 e PESSOA 2 vão lentamente olhando para cima) O porquê de tudo acontecer nessa vida. É para onde a civilização caminha. Para o bolso. Milhões de pessoas dentro de um bolso. Enfiadas. Costuradas umas às outras. Atadas pela insensibilidade. Todos juntos na mesma nave-bolso em direção a um mesmo universo-moeda. Nada mais interessa além disso. As pessoas não se vêem e não se tocam. Elas simplesmente desconfiam. Trust no one. Essa é a frase do mundo atual. Trust no one. E se você confiar cegamente no outro, será o próximo pobre coitado. O próximo idiota. Será o próximo mendigo a ser tostado em álcool em praça pública enquanto dorme. E todos passarão na manhã seguinte por aquele pedaço de carne assada em plena madrugada e não vão ver ali outra coisa senão um monte de comida de cachorro. Por isso eu olho para cima. Para pedir a benção. Esses prédios olham por nós todos há décadas. (vai saindo, olhando para cima) Eles são os únicos que dizem assim...”Estamos aqui...Estamos aqui...Estamos aqui...”(sai) “Estamos aqui...”

Tempo.

PESSOA 1
(deixa de olhar para cima e olha para PESSOA 2) Você me vê de segunda a sexta-feira no ônibus?

PESSOA 2
Vejo.

PESSOA 1
E no metrô também?

PESSOA 2
Exato.

PESSOA 1
Sempre às quinze para as nove?

PESSOA 2
Precisamente.

PESSOA 1
E eu não vejo nada?

PESSOA 2
(olha calmamente para PESSOA 1) Não. (começa a sair)

PESSOA 1
(segue atrás)
Olha, o que aquele homem estava dizendo é uma insânia! Ele é louco, só isso! Ele vê coisas!

PESSOA 2
Você está cego.

PESSOA 1
Não! Eu não estou cego! Aquele homem é que vê demais! Isso aqui é uma metrópole! E metrópoles não podem parar!

PESSOA 2
(saindo) Sei. Tempo é dinheiro.

PESSOA 1
Exato! É tudo o que importa, não é?

PESSOA 2
Não.

PESSOA 1
Como não? Claro que é. É para isso que estamos aqui! Somos uma civilização!

(saem completamente)


FIM
...
(c) 2009 Ruy Jobim Neto . Todos os direitos reservados / all rights reserved.



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35 comentários:

Anônimo disse...

essa historia alem de ser engraçada a muito legalllll,...

Ruy Jobim Neto disse...

obrigado, anônimo!

Anônimo disse...

GOSTEI MUITO DA PEÇA ELA É BEM DIVERTIDA UM ABRAÇO TENHO BLOGGER TEATRO D.P

Ruy Jobim Neto disse...

teatro dp?
só isso? como acho esse blog, caríssimo anônimo?
no blogspot?

Anônimo disse...

im no blogspot entra lá e faz uma visita ok

Anônimo disse...

esse texto é muito engraçado e muito legal adorei me fez rir demais ^^

Anônimo disse...

http://teatrodp.blogspot.com/ entra ai faça uma visita ok

Ruy Jobim Neto disse...

entrarei! brigadão!

Alonso Zerbinato disse...

Fala, Ruy. Blz? Meu nome é Alonso Zerbinato, tenho 21 anos e moro no RJ. Sou ator e há algum tempo estou procurando um texto de mais ou menos 50 minutos para dois ou 3 atores. Gostei muito dos que encontrei aqui e gostaria de saber se você tem outros. Um grande abraço. Espero sua resposta.

Anônimo disse...

Você não teria uma peça para 3 homens e uma mulher?

Anônimo disse...

olá....
acabei de ler o texto e achei legal sou atriz a gostaria de saber se eu posso montar esse espetáculo.

Mariana disse...

Adorei essa história, é engraçada e faz as pessoas refletirem, Parabéns

Guilherme disse...

Adorei o texto! Muito bom mesmo!

Criiiis disse...

Minha próxima apresentação na aula de teatro será essa peça! Muito divertida :)

Crista Nasha disse...

Bom, sou comentarista de peças, eu gostei muito da peça mas ela não faz sentido, termine com um sentido mais óbvio e a coisa certa. Tempo não é dinheiro .

Raayaaannnneee disse...

Eu não entendi :s , maais deve ser leegaal :D

Larissa disse...

Achei bem legal,na minha escola tenho que fazer uma peça de teatro, estava procurando uma peça e achei ! :O

Anônimo disse...

NOSSA ADOREI O TEATRO,NA ESCOLA AGENTE TINHA QUE ACHA UM E ESSE FOI O MELHOR QUE EU ACHEI =),,

fürst teylon disse...

muito boa a história vou aprezentala em uma pesa te teatro na escola

RHBJ disse...

Olá, gostei muito do seu blog e dessa peça, que é interessantíssima. Gostaria que pudesse também conhecer meu blog: http://rhbjhistoria.blogspot.com Parabéns!

Anônimo disse...

nossa!ese texto é de muita sensibilidade!

Anônimo disse...

MUITO BACANA SUA HISTORIA...É ALGO Q HJ EM DIA É UM TANTO COMUM.
BOM EU SOU ATOR AQUI NO PARANA E GOSTARIA DE NEGOCIA COM VC SOBRE UMA PEÇA PRA 2PESSOAS DE PREFERENCIA COMEDIA..CASO HAJA INTERESSE MEU EMAIL É RINO.CIADETEATROG3@GMAIL.COM

Anônimo disse...

Gosto muito dos textos do Ruy Jobim...Só queria mais textos pra 2 atores(homem)Sou ator e sempre ensaio textos curtos como exercicio!!!...Grande Abraço!

Edy Andrade disse...

Tmbm gostei muito de seu texto, e discordo do comentário que li sobre dar um final logico, pois acho que o teatro é realmente isso, fazer com que as pessoas reflitam sobre o que assistiram!!!

Edy Andrade disse...

Tmbm gostei muito de seu texto, e discordo do comentário que li sobre dar um final logico, pois acho que o teatro é realmente isso, fazer com que as pessoas reflitam sobre o que assistiram!!!

Anônimo disse...

Gostei muito da sua peça será que posso readaptar em minha escola

Anônimo disse...

Se você permitir me responda.

Anônimo disse...

GOSTEI MUITO DA HISTORIA ,E É AINDA MELHOR QUANDP NO LUGAR DE PREDIOS , ( DEUS) POIS É O UNICO Q ESTA SEMPRE OLHANDO POR NÓS!!!

Anônimo disse...

Gostei da peça, relata bem as condições atuis em que vivemos; mas apesar disso não encontrei o humor evidente, mas tudo depende de como cada um enxerga...

Denis Bueno disse...

Nossa gostei da sua peça, ela retrata bem o corre corre do dia a dia e a necessidade que temos em olhar e buscar algo que esta la mas nao vemos... gostaria de saber se voce me autoriza trabalhar essa sua peça com crianças carentes em projetos, que é o que faço. se sim me responda por favor. meu blog chamasse ( o corpo e o teatro ) e o outro é Teatro na Pele | bacteria.arteblog.com.br ) e veras meu trabalho, desde ja agradeço.
Bueno

Anônimo disse...

Nossa,bem legal.
Achei muito interessante por ser uma coisa que realmente se pararmos pra pensar,o homem simplesmente não repara o que estar em volta.
Parabéns,conseguiu retratar muito bem isso.

Letícia Holmes disse...

Adoreeeeeeei a pessoa 1 kkkkkkkkkkkkkkkkkk

Rose Mari disse...

Achei seu teatro maravilhoso, muito reflexivo.Sou professora de artes e precisamos apresentar um teatro num concurso de nossa superintendência. Gostaria de saber se você me permite usá-lo. Aguardo sua resposta no meu email rose37becker@hotmail.com

jordyane disse...

Não achei esse texto engraçado

Anônimo disse...

Nao achei engraçado mais é bom