quinta-feira, 21 de maio de 2009

Texto para ator e atriz: "EXAME"


“EXAME”
de
Ruy Jobim Neto

Um ateliê. homem pinta um quadro, uma mulher posa, ela veste um sobretudo.

Personagens
CHRISTIAN
ROXANNE
.......


CHRISTIAN
Está calada, hoje.

ROXANNE
Eu?

CHRISTIAN
Você é sempre falante. Sempre contando seus problemas.

ROXANNE
Eu sempre conto meus problemas?

CHRISTIAN
Toda vez.

ROXANNE
Posso me mexer?

CHRISTIAN
Agora não. Quero captar sua aura assim.

ROXANNE
Mas eu não estou fazendo nada.

CHRISTIAN
Melhor assim. Se você estivesse falando, gesticularia muito.

ROXANNE
Eu gesticulo muito?

CHRISTIAN
Sim.

ROXANNE
E conto problemas?

CHRISTIAN
Sempre.

ROXANNE
Eu sou um estorvo pra você, então.

CHRISTIAN
Não, não é. Eu gosto quando você gesticula e quando conta seus problemas.

ROXANNE
Então..

CHRISTIAN
Nem pense em se mexer.

ROXANNE
Essa pose limita as pessoas.

CHRISTIAN
Eu sei.

ROXANNE
Entendi. É uma pose pra pessoa não gesticular e nem contar problemas.

CHRISTIAN
Entenda como quiser.

ROXANNE
Me fale de um problema.

CHRISTIAN
Meu?

ROXANNE
Não. Um meu que eu tenha contado. Você lembra deles?

CHRISTIAN
Recordo um por um. Cada sessão contigo vale por um ano de analista.

ROXANNE
Unzinho só. Você é capaz de lembrar?

(Christian pára de pintar, vai até Roxanne, olha pra ela)

ROXANNE
O que foi?

CHRISTIAN
Estou examinando.

ROXANNE
Examinando o quê?

CHRISTIAN
Coisa de pintor. Pintores examinam.

ROXANNE
(incomodada) Esse exame demora muito.

CHRISTIAN
Cada um tem seu tempo.

ROXANNE
Ah, cada um tem seu tempo.

CHRISTIAN
Cada um tem seu tempo.

ROXANNE
E este exame é pra ver o quê? Se ao menos eu estivesse nua...

CHRISTIAN
Não carece disso, nesse quadro.

ROXANNE
Você não é uma bicha enrustida não, né, Christian?

CHRISTIAN
(impassível, examinando) Nesse quadro a modelo não precisa estar nua.

ROXANNE
Posso ver o quadro?

CHRISTIAN
Não.

ROXANNE
Posso ao menos me mexer?

CHRISTIAN
JÁ DISSE QUE NÃO!

(silêncio)

CHRISTIAN
Me perdoe. Não costumo brigar com modelos.

ROXANNE
Christian, você não me respondeu à pergunta. Se você é bicha enrustida ou não.

CHRISTIAN
Eu não respondo perguntas enquanto examino.

ROXANNE
Caralho de exame idiota é esse, Christian? Para com isso, porra!

CHRISTIAN
(para imediatamente, apruma-se) Roxanne, você é uma modelo insuportável quando não está gesticulando ao contar seus problemas.

ROXANNE
O que você quer? Que eu conte problemas e gesticule? Não posso me mexer!

CHRISTIAN
Eu estou te pagando a hora pra você ficar imóvel, não pra gesticular.

ROXANNE
E quanto aos problemas?

CHRISTIAN
(volta pro quadro) Roxanne, a pergunta é muito simples.

ROXANNE
Qual?

CHRISTIAN
Você é capaz de contar um problema ao menos sem gesticular uma vez sequer?

ROXANNE
(apronta-se para pintar) Um problema sem gesticular?

CHRISTIAN
Exato.

ROXANNE
Posso pensar um pouco?

CHRISTIAN
Você não foi contratada para pensar sobre gesticulação.

ROXANNE
Posso tentar.

CHRISTIAN
Ótimo. Só assim posso retomar meu quadro.

ROXANNE
Por que? Porque eu muda e caladinha aqui você fica incomodado?

CHRISTIAN
Sim.

ROXANNE
E daí vem me examinar?

CHRISTIAN
Não. Isso era outra coisa. Era pra ver suas rugas de expressão mais de perto.

ROXANNE
Eu não tenho rugas de expressão.

CHRISTIAN
Claro que tem. E elas somem quando você conta seus problemas.

ROXANNE
Mas aí é que eu fico mais deprimida ainda.

CHRISTIAN
É justamente o contrário.

(silêncio)

ROXANNE
Posso começar, então?

CHRISTIAN
A contar um de seus problemas?

ROXANNE
Prometo não gesticular.

CHRISTIAN
Comece. (pega o pincel, olha para ela)

ROXANNE
Muito bem. (tempo) Qual deles você quer que eu conte?

CHRISTIAN
Qualquer um.

ROXANNE
Mas deve ter algum de sua preferência.

CHRISTIAN
Qualquer um, Roxanne, desde que você não gesticule.

ROXANNE
Vou contar aquele em que o Miguel...você sabe...

CHRISTIAN
Não, não sei.

ROXANNE
Aquele em que ele...claro que você sabe! Eu te contei.

CHRISTIAN
Juro que não lembro.

ROXANNE
Mas você lembra de todos os meus problemas.

CHRISTIAN
Não desse. Com esse tal de Miguel.

ROXANNE
(tempo. Sorri) Chris, você está com ciúmes?

CHRISTIAN
Quem dera. Nem sei do que se trata.

ROXANNE
Tá. Eu vou te contar esse problema, então.

CHRISTIAN
Se não quiser, não conte.

ROXANNE
Contarei, Christian. Pra você ver que esse seu ciúme é infundado.

CHRISTIAN
Eu não estou com ciúmes.

ROXANNE
Não adianta negar. Uma mulher consegue farejar isso a quilômetros de distância.

CHRISTIAN
Eu sou um pintor. Se eu sentir ciúmes de todas as minhas modelos, posso me atirar desse décimo nono andar e dou cabo de minha vida. Não fui talhado pra isso. Meu ofício é pintar. O seu é contar problemas.

ROXANNE
O meu é contar problemas?

CHRISTIAN
Sem gesticular.

ROXANNE
Pois muito bem. Vou começar.

(tempo)

ROXANNE
Eu e Miguel fizemos amor ontem à noite.

CHRISTIAN
Quem é Miguel?

ROXANNE
Um carinha que eu conheci ontem mesmo. Eu te contei, não lembra?

CHRISTIAN
Não. E você já foi com ele pra cama, assim, de primeira?

ROXANNE
Eu sou crescidinha, meu amor. Adulta e vacinada. Deu na telha e eu dei.

CHRISTIAN
Deu.

ROXANNE
É como se diz por aí. Quer que eu te mostre como?

CHRISTIAN
Sem gesticular.

ROXANNE
Caralho. (tempo) Vamos lá. Foi ontem à noite. A gente se conheceu num barzinho. Ele tocava. Aí, como toda mulher que se preza, sempre cai de quatro pelo baixista.

(Christian para de pintar)

ROXANNE
O cara era um gostoso, um tesão. Eu falei pra ele: “vem pro meu apê. Agora”. E ele veio. Putz. Ele me despia com uma precisão cirúrgica, eu me senti uma guitarra nas mãos dele, um baixo elétrico, sabe? Ele me excitava toda, eu parecia ligada na tomada. E aí fizemos um acústico.

CHRISTIAN
Acústico?

ROXANNE
(mexe-se) Ops. Desculpe. (volta à pose. Começa a rir)

CHRISTIAN
Não se mexa, por favor.

ROXANNE
Desculpa. (volta à pose) Então...como eu ia contando...

CHRISTIAN
Até agora não vi problema algum. Tá demorando muito.

ROXANNE
Calma. Temos quanto tempo ainda?

CHRISTIAN
(olha no relógio) Dez minutos.

ROXANNE
Ah, porra! Tem tempo pra caralho.

CHRISTIAN
Só não se mexa.

ROXANNE
Ah, o problema. Sim. Então, como eu ia dizendo, o acústico foi lindo, fizemos várias faixas.

CHRISTIAN
Vocês fizeram amor ou gravaram um CD?

ROXANNE
A gente trepou pra caralho.

CHRISTIAN
Que palavriado. Por que você não volta a usar o termo “fazer amor”?

ROXANNE
Porque não foi “fazer amor”. A gente trepou mesmo. Há uma diferença muito grande.

CHRISTIAN
Qual?

ROXANNE
Ah...(sorri) A intensidade...A diferença está...Fazer amor envolve paixão, entrega a um sentimento...Trepar é trepar, é ali, na coisa.

CHRISTIAN
Na coisa? (anda até Roxanne)

ROXANNE
Isso. Na coisa. Ali. Tudo, entende? Ah, você é homem, você sabe como é. (ele se aproxima, ela se incomoda de novo) O que é isso? Outro exame?

CHRISTIAN
Continue contando.

ROXANNE
Vai ver minhas rugas de expressão de novo?

CHRISTIAN
E o teu problema, caramba? Continua contando! Eu tô te pagando ou não?

ROXANNE
Você tá me pagando pra posar! Não pra contar meus problemas!

CHRISTIAN
Não tô vendo problema algum neste teu acústico com esse tal de Miguel.

ROXANNE
Você tá com ciúmes.

CHRISTIAN
Eu sou um pintor.

ROXANNE
Christian, eu te conheço. Essa sua ruguinha de expressão não mente...Você está com ciúmes!

CHRISTIAN
Roxanne! Caralho! Que porra de modelo é você? Vai ou não vai contar o tal problema com esse tal de Miguel? Tô esperando! Ou você acha que meu tempo aqui é de graça? Eu pago esse aluguel, eu pago a luz, eu pago o condomínio dessa porra de estúdio pra quê? Pra ouvir você falar de uma trepada acústica com um baixista chamado Miguel que você conheceu ontem à noite? Ah, não! Sinto muito, eu sou profissional! Não tira uma com a minha cara!

ROXANNE
Você tá com ciúmes!

CHRISTIAN
Você tá se mexendo!

ROXANNE
Tá com ruga de expressão!

CHRISTIAN
Caralho...

(Roxanne beija Christian de sopetão, e então larga ele. Silêncio)

CHRISTIAN
Puta que pariu, Roxanne! Você se mexeu, caralho! O que é que eu te disse?

ROXANNE
(volta pra pose) Desculpe. Não resisti.

CHRISTIAN
Você é uma profissional ou não?

ROXANNE
Você é uma bicha enrustida ou não?

CHRISTIAN
O que interessa isso? Evidente que eu não sou uma bicha enrustida, Roxanne! Senão teria saído fora desse teu beijo!

ROXANNE
Uma bicha enrustida não sairia, não. Por que sairia?

CHRISTIAN
E o teu problema? Não vai contar?

ROXANNE
Vou. O tal de Miguel, o baixista da trepada acústica, enquanto trepávamos adoidado, ele gemeu um nome. O teu.

CHRISTIAN
O quê?

ROXANNE
Ele disse bem assim....” Christian”. Eu ouvi direitinho. “Christian”. Era você.

CHRISTIAN
De alguém falar "Roxanne" pra falar "Christian" tem anos luz de diferença.

ROXANNE
Mas era o teu nome. Eu broxei na hora, nem precisava dizer.

CHRISTIAN
Você broxou por minha causa?

ROXANNE
Tá vendo!?! Era você mesmo!

CHRISTIAN
Não, não por minha causa! Mas por causa do meu nome!

ROXANNE
Broxei.

CHRISTIAN
Daí você ter me beijado?

ROXANNE
É. Pra sentir o que ele sentiu contigo.

CHRISTIAN
Ele quem?

ROXANNE
O Miguel, porra! O da trepada acústica!

CHRISTIAN
Pera lá, Roxanne! Você me examinou pra ver se eu era o Christian que esse tal de Miguel falou no teu ouvido?

ROXANNE
Ele não disse...no meu ouvido. Foi no meu perínio.

CHRISTIAN
Que coisa nojenta de contar, Roxanne!

ROXANNE
Pois é! O cara frente a frente com o meu perínio e fala o teu nome! “Christian!”. Como é que você queria que eu me sentisse?

(Christian volta pro quadro, escolhe o pincel, apronta-se pra pintar)

ROXANNE
Você tá com ciúmes....

CHRISTIAN
(desce o pincel no chão, joga e voa pra cima de Roxanne) Caralho, Roxanne! Cê tá me tirando do sério! (ele para imediatamente na frente dela, ela não se mexe, tempo)

ROXANNE
Você vai me bater? Eu tô imóvel.

(Christian respira)

ROXANNE
O Miguel disse o teu nome cara a cara com o meu perínio. Eu broxei. Ele me disse que tava a fim de outra pessoa. Eu perguntei quem era. Ele disse que era você, Christian. Perguntei o sobrenome. Ele disse o seu. Eu te imaginei ali com ele, fazendo o que eu e ele fizemos. Pensei. O cara é bi. Tudo bem. Quando você me telefonou pra sessão de hoje eu pensei que seria a chance de contar mais esse problema. O que eu não poderia nunca imaginar era que esse problema envolvesse exatamente você, Christian.

CHRISTIAN
Eu?

ROXANNE
E bem de frente pro meu perínio. Eu não vou me esquecer disso nunca mais na minha vida. Meu perínio vai estar associado a você, de agora em diante.

CHRISTIAN
Temos um minuto e meio.

ROXANNE
O que você quer fazer?

(tempo)

ROXANNE
Quer fazer amor comigo?

CHRISTIAN
Num minuto e meio?

ROXANNE
Melhor não.

CHRISTIAN
Eu não falaria o nome de outra pessoa diante do teu perínio.

ROXANNE
Eu sei que não. Agora já está associado ao teu nome. E a você. Isso soaria fake demais.

CHRISTIAN
Melhor você se mexer. E pegar tuas coisas.

(Roxanne finalmente se mexe, sai da pose e vai para suas coisas)

ROXANNE
Volto noutra hora?

CHRISTIAN
Volta.

ROXANNE
Você tem dinheiro agora? Tem como me pagar?

CHRISTIAN
Tenho. (vai até a carteira, pega dinheiro, dá a Roxanne)

ROXANNE
(examina)
Tá certo. (vai para o quadro) Posso ver?

CHRISTIAN
Ainda não.

ROXANNE
Por quê? (tenta ir ao quadro, Christian vai impedindo) Me deixa ver, Christian. Ah, vai, me deixa.

CHRISTIAN
(solta) Está bem. Pode ver.

ROXANNE
(vai ao quadro, horroriza-se) Christian.

CHRISTIAN
Sim?

ROXANNE
Essa não sou eu. Isso aqui parece mais um perínio!

CHRISTIAN
Você é paga para posar, não para fazer crítica de arte.

ROXANNE
Qual o nome desse quadro?

CHRISTIAN
“Acústico”.

(Roxanne tira o quadro do cavalete)

CHRISTIAN
O que você tá fazendo? Peralá! (vai até Roxanne, ela pega outro quadro sem nada pintado e põe no cavalete) Ei! (Roxanne entrega para ele o dinheiro, ele pega)

ROXANNE
Me pinta. Eu. Tô te pagando e não mexerei um dedo sequer.(Roxanne o beija novamente, com mais ternura. Em seguida se desfaz do sobretudo, está nua. Estende o sobretudo para Christian, ele pega) Também não vou contar nenhum problema, desta vez. (sorri docemente)

(blecaute)

FIM

(C) 2009 Ruy Jobim Neto. Todos os direitos reservados. All rights reserved.



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quarta-feira, 20 de maio de 2009

peça para duas pessoas e um homem



“O HOMEM QUE
OLHOU PARA CIMA”

de
Ruy Jobim Neto
.....
Personagens:
HOMEM
PESSOA 1
PESSOA 2
.......

(um homem anda, atravessa o palco em diversos momentos, há um mistério nele. Em determinado instante do espetáculo esse homem olha para cima. E se fixa nisso. As pessoas, em torno, olham também e param curiosas. Vão conversar com ele)

PESSOA 1
O que o senhor tá vendo?

HOMEM
Psst!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Ele tá vendo alguma coisa? O quê?

HOMEM
Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) É o que eu vou tentar descobrir. (para HOMEM) Meu senhor.

HOMEM
Psst.

PESSOA 1
Meu senhor! O que o senhor está vendo?

HOMEM
Me deixa.

PESSOA 2
Não tá vendo que este homem não quer ser interrompido?

PESSOA 1
Mas interrompido em quê? E pra onde ele tá olhando? Você tá vendo alguma coisa?

PESSOA 2
Eu não.

HOMEM
(para as duas pessoas) Psst! Fica quieto.

PESSOA 1
(para o HOMEM) Fica quieto por quê? O que o senhor tá vendo?

HOMEM
(sem tirar os olhos de para onde está olhando) Será possível que um homem não possa olhar, simplesmente?

PESSOA 1
Poder, pode, mas o quê, meu senhor?

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Não tá vendo que ele não quer dizer? Vamos embora!

PESSOA 1
(para PESSOA 2)
Embora pra onde? Calma! Ele não disse mas vai dizer!

HOMEM
Me deixa em paz!

PESSOA 2

Não tá vendo? Ele tá relutante!

HOMEM
Eu não estou relutante. Só estou vendo.

PESSOA 2
(enfezado) Tá! Tá vendo, mas tá vendo o quê, meu senhor?

HOMEM
O que vocês simplesmente não são capazes.

(PESSOA 1 e PESSOA 2 olham para cima, procuram, curiosos)


HOMEM
Há uma beleza lá em cima que vocês não são capazes de ver porque estão mergulhados em seus umbigos.

PESSOA 1
Eu não estou mergulhado em...

PESSOA 2

(para PESSOA 1) Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Ei!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Deixa ele falar!

HOMEM
O que vocês simplesmente não conseguem enxergar porque estão cegos, surdos e desprovidos de qualquer sensibilidade. É tudo o que eu estou vendo. Com olhos de criança. Como se fosse a primeira vez.

PESSOA 1
Mas o quê, meu senhor?

PESSOA 2
(agarrando o braço de PESSOA 1) Psst!

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Você tá vendo alguma coisa lá em cima? Tá vendo alguma coisa?

PESSOA 2
Eu não, mas quem sabe ele nos dê alguma pista! Tenha calma!

PESSOA 1
Eu nem te conheço! Por que vou ter calma? Por que vou ter calma com ele, também? Ele não quer dizer, que se dane! Pra que vou ficar olhando pra cima? Pra ver um pombo cagar na minha cara? Entrar merda de pombo nos meus olhos? Vê se eu lá tenho tempo pra perder com isso? Ele não quer dizer? Ótimo! Eu também não quero mais saber.

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Mas foi você que começou com isso.

HOMEM
Foi.

PESSOA 1
(para o HOMEM) Olha aqui, meu senhor, eu tenho mais o que fazer, viu? Isso aqui é uma metrópole e metrópoles não podem parar um instante sequer! Tempo é dinheiro! Já ouviu falar disso?

HOMEM
(sorri) “Tempo é dinheiro”. Eu tinha certeza de que mais hora, menos hora, essa frase ia sair da boca de alguém.

PESSOA 1
Saiu da minha!

HOMEM
Nada mais previsível.

PESSOA 1
E daí? (furioso) Por que o senhor não olha pra gente enquanto fala? O que tem de tão anormal, de tão bizarro lá em cima que o senhor não tira os olhos?

HOMEM
Você é extremamente previsível.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Eu vou pegar esse cara!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Calma! Talvez esse senhor esteja louco ou algo parecido. Isso acontece muito nas metrópoles. Pessoas param no Viaduto e ficam olhando para cima. Vá ver é uma forma de chamar a atenção. Eles fazem isso para que as outras pessoas olhem também. E daí esse senhor vai depois, para casa, de ônibus, feliz e satisfeito de ter feito pessoas olharem para cima.

HOMEM
Eu vou a pé.

PESSOA 1
O quê?

HOMEM
Eu vou a pé para casa.

PESSOA 1
Alguém te perguntou alguma coisa, meu senhor?

HOMEM
Eu vou a pé. Para olhar.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Este senhor está me tirando do sério!

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Tenha calma!

PESSOA 1
Como vou ter calma? Não tenho meu tempo a perder! Muito menos com um sujeito como este senhor aqui, que olha sabe-se lá para onde! Esta cidade não pode parar.

HOMEM
Por isso ela não vive.

PESSOA 1
(para PESSOA 2) Agora foi demais! Eu vou pegar esse cara! Vou chutar ele!

PESSOA 2
(agarra PESSOA 1 como pode) Deixa disso!

HOMEM
Por isso a cidade não respira.

PESSOA 1
Ele está abusando! Me deixa! Eu vou encher ele de porrada!

PESSOA 2
Calma! Ele tá falando!

HOMEM
As pessoas não olham. Nem para elas mesmas.

PESSOA 1
Eu pego ele! Me larga! Eu vou matar esse cara!

HOMEM
(calmamente olha para os dois)
Vocês dois querem mesmo saber o que eu estou olhando?

PESSOA 2 e PESSOA 1
(juntos)
PESSOA 1 - NÃO!
PESSOA 2 – SIM!

HOMEM
(volta calmamente a olhar para cima) O homem moderno é exatamente como vocês. Essa miríade de indecisões.

PESSOA 1
Ele me xingou! Eu vou esmurrar ele!

PESSOA 2
Ele não falou de você!

PESSOA 1
Ele me chamou de mirí...do que que é mesmo?

HOMEM
Por isso a civilização está morrendo!

PESSOA 1
Eu mato! Eu esfolo! (para PESSOA 2) Me larga! Quem você pensa que é? Eu te conheço?

HOMEM
O homem não se vê mais.

PESSOA 2
(para PESSOA 1) Você sempre pega o mesmo ônibus e o mesmo metrô que eu. Faz o mesmo trajeto de segunda a sexta-feira, exatamente às quinze para as nove. Religiosamente.

HOMEM
E não olha para cima.

PESSOA 2
Não.

PESSOA 1
Eu vou matar vocês dois.

HOMEM
Nada mais previsível.

PESSOA 1
Eu vou pular no pescoço!

HOMEM
Docemente previsível.

PESSOA 1
Eu mato!

PESSOA 2
Tenha calma. Este senhor estava prestes a nos dizer o que ele está olhando.

PESSOA 1
Não me interessa mais!

HOMEM
O interesse morreu.

PESSOA 1
Eu arrebento a cara dele!

HOMEM
(para os dois, enfático e em voz alta) EU ESTAVA... (PESSOA 1 e PESSOA 2 páram a confusão, olham para o HOMEM)...SIMPLESMENTE...OLHANDO...A CIDADE. (torna a olhar para cima calmamente, tom) Os prédios antigos. Da época do café. As construções que misturam o rococó com o art nouveau, as fachadas de lojas que tapam essas construções magníficas e os fazem desaparecer enquanto, na realidade, estes mesmos prédios estão aí há décadas. Viram passar milhões de pessoas por este mesmo pedaço de chão que estamos pisando. (olha para PESSOA 1 e PESSOA 2) E no entanto, ninguém mais presta a atenção neles. Ninguém. Estão todos cegos. E nesta cegueira, a cidade se perde porque as pessoas se perdem na imensidão de seus bolsos. O bolso - a fronteira final. O fim e o começo de tudo. O começo da vida. A razão das coisas. (ao mesmo tempo em que HOMEM fala, PESSOA 1 e PESSOA 2 vão lentamente olhando para cima) O porquê de tudo acontecer nessa vida. É para onde a civilização caminha. Para o bolso. Milhões de pessoas dentro de um bolso. Enfiadas. Costuradas umas às outras. Atadas pela insensibilidade. Todos juntos na mesma nave-bolso em direção a um mesmo universo-moeda. Nada mais interessa além disso. As pessoas não se vêem e não se tocam. Elas simplesmente desconfiam. Trust no one. Essa é a frase do mundo atual. Trust no one. E se você confiar cegamente no outro, será o próximo pobre coitado. O próximo idiota. Será o próximo mendigo a ser tostado em álcool em praça pública enquanto dorme. E todos passarão na manhã seguinte por aquele pedaço de carne assada em plena madrugada e não vão ver ali outra coisa senão um monte de comida de cachorro. Por isso eu olho para cima. Para pedir a benção. Esses prédios olham por nós todos há décadas. (vai saindo, olhando para cima) Eles são os únicos que dizem assim...”Estamos aqui...Estamos aqui...Estamos aqui...”(sai) “Estamos aqui...”

Tempo.

PESSOA 1
(deixa de olhar para cima e olha para PESSOA 2) Você me vê de segunda a sexta-feira no ônibus?

PESSOA 2
Vejo.

PESSOA 1
E no metrô também?

PESSOA 2
Exato.

PESSOA 1
Sempre às quinze para as nove?

PESSOA 2
Precisamente.

PESSOA 1
E eu não vejo nada?

PESSOA 2
(olha calmamente para PESSOA 1) Não. (começa a sair)

PESSOA 1
(segue atrás)
Olha, o que aquele homem estava dizendo é uma insânia! Ele é louco, só isso! Ele vê coisas!

PESSOA 2
Você está cego.

PESSOA 1
Não! Eu não estou cego! Aquele homem é que vê demais! Isso aqui é uma metrópole! E metrópoles não podem parar!

PESSOA 2
(saindo) Sei. Tempo é dinheiro.

PESSOA 1
Exato! É tudo o que importa, não é?

PESSOA 2
Não.

PESSOA 1
Como não? Claro que é. É para isso que estamos aqui! Somos uma civilização!

(saem completamente)


FIM
...
(c) 2009 Ruy Jobim Neto . Todos os direitos reservados / all rights reserved.



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